quinta-feira, 14 de abril de 2011

Estamos perdendo o trem da história | AFRICAS.com.br

Seria o caso de perda do mandato por quebra do decoro parlamentar, processo e condenação com base na legislação antirracista por apologia a crime considerado inafiançável e imprescritível pela Constituição. O deputado Bolsonaro, porta-voz da extrema direita militar, reincidente na defesa da homofobia e da tortura, porém, não será punido…

… e, se o for, receberá, no máximo, uma advertência, alguma coisa que sirva para que os parlamentares de todos os Partidos – de A a Z do expectro político e ideológico – dêem uma satisfação às suas bases.

Não é a primeira, nem será a última vez, que polêmicas da espécie servirão apenas para demonstrar como – quando se trata do tema, – entra-se num clima carnavalesco, folclórico, que só se presta a demonstrar duas coisas igualmente graves:

1 – como a parte beneficiária se recusa a encarar de frente a herança maldita de quase 400 anos de escravidão; 2 – como nós negros, divididos, em partidos, aceitamos papéis alegóricos, atraídos pelos puxadinhos no Poder Público, ou por cargos simbólicos; nos tornamos incapazes de uma reação à altura da ofensa, ainda que por legítima defesa, que seja altiva o bastante para honrar nossa história.

Foi assim no caso Ziraldo, em que o humorista inventor da concepção ipanemense do bom-racismo (o racismo sem ódio, em contraposição ao que racismo com ódio), debochou da história, das leis e da própria Constituição e ninguém – rigorosamente ninguém – tomou atitude, a não ser, meia dúzia de ativistas que ensaiou um tímido protesto, caindo na cilada de usar as mesmas armas do agressor – o deboche -, e, portanto, emprestando o tom de “de não me leve a mal, tudo é carnaval”.

Resultado: tudo entrou na conta da velha cordialidade brasileira e serviu para fazer com que o decrépito humorista e o seu humor sem graça voltassem à mídia, ultimamente freqüentada por ele, graças a motivações nada nobres e muito menos engraçadas: a condenação por improbidade administrativa e a posssibilidade de perda dos direitos políticos por até oito anos.

Foi assim, no início deste ano, quando o ministro da Justiça, José Eduardo Cardozo, participou do lançamento do Mapa da Violência 2011, em que os dados oficiais divulgados seriam suficientes para que o Governo, ao menos anunciasse alguma medida de impacto: de cada três jovens mortos por homicídios no Brasil dois são negros, o que dá uma idéia – inclusive pela falta de ações e reações – de como não apenas a pobreza e a miséria nesse país, em pleno século XXI tem cor, mas também o tem as vítimas preferenciais da barbárie.

O caso do deputado que, dia sim, outro também, faz a apologia do regime militar que, torturou, matou e sumiu com gente (ainda temos mais de 200 homens e mulheres desaparecidos, cujos corpos continuam sendo procurados por suas famílias), entrará assim, na história, como mais uma polêmica fadada a desaparecer da mídia e dos programas de televisão que a levaram à pauta, assim que a platéia se canse, conforme apontem os índices de audiência.

Terá se naturalizado então, mais uma violência; terá se banalizado um pouco mais a idéia de que “é assim mesmo, nada há a ser feito”; teremos, nós negros, um pouco mais de vergonha – aqueles que não a perderam – de dizer para os nossos filhos e netos que nada fizemos.

O interessante é que temos dezenas, talvez centenas de excelentes acadêmicos, produzindo teoria nas universidades públicas. A matéria prima de seus estudos somos nós, a história da escravidão, as iniqüidades que o racismo vem engendrando há séculos.

Cada um preocupado com a sua própria carreira, parece achar bastante que agora o tema, não seja mais monopólio de intelectuais brancos como foi em passado recente. Só isso explica que não se manifestem – a não ser das suas cátedras, quando o fazem -, que tenham se tornando “apolíticos” – a forma mais educada e branda de dizer que, em verdade, passaram a representar o status-quo vigente, se tornaram parte do stablishment; seus títulos servem apenas para engordar os próprios currículos.

Certamente os casos Ziraldo, Bolsonaro, do deputado-pastor Feliciano e outros, ilustrarão palestras, teses, teorias, estudos, “papers”, o diabo, mas a pergunta é: e daí?

O interessante é que temos também parlamentares negros, poucos, menos de 10% na Câmara dos Deputados, e um, entre os 81 senadores. Alguma atitude articulada dessas bancadas – algo que saísse do jogo de cena corporativo, em que cada um da tribuna, apenas busca se mostrar o mais preocupado, o mais ativo, para dar satisfações à sua base? Nada. Alguma ação no sentido de cobrar dos seus respectivos partidos, uma reação unitária à agressão a metade da população brasileira? Tampouco.

Também temos, inclusive, uma ministra da Igualdade Racial, a socióloga Luiza Bairros. O que disse a ministra, a respeito das palavras de Bolsonaro? Em resumo que “são caso explícito de racismo”, “que não se pode confundir liberdade de expressão com a possibilidade de cometer um crime”, que “racismo é crime previsto na Constituição”, que “qualquer caso de discriminação deve ser repudiado” e que espera “firmeza” da Câmara dos Deputados.

Pronunciamento tão cauteloso, tão discreto, tantas obviedades e platitudes numa mesma fala não poderia haver.

A mesma discrição, aliás, que marcou a presença (na verdade, a ausência) da ministra durante a visita recente do Presidente dos EUA, Barack Obama, em que conseguiu não ser vista nem nas imagens de TV, nem em fotografias, em Brasília ou no Rio, passando a impressão de que seu sumiço teria sido algo proposital, ou atendido a recomendação de instâncias superiores outras.

Alguém pode avaliar o impacto positivo que teria uma foto que fosse da ministra da Igualdade Racial do Brasil – o país com maior população negra fora da África – ao lado do Presidente Obama, o primeiro negro a chegar à Casa Branca, com toda a carga simbólica que isso representa em um país que, ao contrário do Brasil, tem uma população negra não superior a 13% e até há pouco estava dividido por políticas de segregação semelhantes ao apartheid sul-africano?

De duas uma: ou a ministra não fez – ou não tem – uma avaliação política do que isso representaria e nesse caso temos apenas uma técnica, sem capacidade – ou talvez autonomia – de avaliar politicamente as suas ações, do ponto de vista do segmento de população que representa no Governo; ou teria recebido determinação para que sumisse da foto e dos holofotes – o que é mais grave porque expõe a sua conivência, em nome do seu espaço no governo, com algo inaceitável.

Os acontecimentos todos, os pretéritos e os recentes, porém, expõe um padrão de comportamento que precisa ser enfrentado por todos quantos queiram continuar lutando por um Brasil com inclusão da metade da população brasileira, que continua de fora, sem que os herdeiros da Casa Grande se disponham a repartir e a dividir conosco os frutos de termos nos tornado a sétima economia do mundo.

Temos uma Causa – a da Igualdade -, secular, histórica, mas não temos lideranças políticas capazes de reunir em torno dessa causa, os maiores interessados no seu triunfo – os 95 milhões de afro-brasileiros, bem como os setores da sociedade a quem declarações feitas por Bolsonaro repugnam; não temos lideranças à altura do tamanho da Causa que defendemos.

Temos uma Causa, mas não temos rumo porque para dar rumo servem os líderes.

Divididos e fragmentados – separados por palavras de ordem vazias, mesmo os mais sérios, os mais dignos, os que não se deixaram atrair ao pântano do oportunismo e dos negócios –, perderam a iniciativa e já não reagem de forma conseqüente: sua ação propagandística-doutrinária, não sensibiliza ninguém, até porque se presta apenas ao papel de desabafo para quem a faz.

Quem falará pelos negros brasileiros – homens e mulheres – na sua imensa diversidade cultural, religiosa, histórica, porém, unidos pela mesma situação de exclusão apontada por todos os indicadores sócio-econômicos?

Estamos perdendo o trem da história. E as futuras gerações nos cobrarão por isso.
Fonte: http://www.afropress.com/editorial.asp

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