sexta-feira, 8 de janeiro de 2010

Guarapari: a “Cidade Saúde” está doente

Marina Denicoli
marina@eshoje.com.br

Fotos: Leonardo Sá
Um dos destinos preferidos dos capixabas e turistas de todas as partes do país, Guarapari, está entre as cidades do litoral do Espírito Santo que melhor combina lazer com infraestrutura. A orla, com muitas praias urbanizadas e tomadas por calçadões, quiosques, bares e restaurantes - caso das praias do Morro, das Castanheiras e da Areia Preta -, atrai famílias com crianças e idosos que curtem águas calmas e transparentes, e areias monazíticas.

Os mais jovens marcam presença nas praias da Enseada Azul e Meaípe - esta última mantém o astral de vila de pescadores e é o cenário ideal para o lançamento dos modismos de verão. Por lá, ficam também os melhores restaurantes de frutos do mar da região, especializados na moqueca capixaba. O prato preparado em panelas de barro, ao contrário da receita baiana, não leva leite de coco e azeite de dendê. Meaípe é famosa ainda pela noite agitada. Junto com a vizinha Nova Guarapari, concentra as mais concorridas boates e casas noturnas da cidade.

Guarapari, também reserva surpresas para os esportistas. Nas sossegadas praias do Sol, d'Ulé, Setibão e da Cerca, há boas ondas o ano inteiro, assim como na movimentada praia do Morro. Os mergulhadores, que encontram águas ainda mais cristalinas entre dezembro e maio, fazem a festa nos naufrágios, ilhas e recifes bem próximos da costa. São peixes e corais coloridos, esponjas, tartarugas, polvos, arraias e lagostas espalhados por Três Ilhas, Farol da Escalvada e Ilha Rasa.

O problema é que a “cidade saúde” – assim batizada, devido às areias monazíticas (radioativas), a areia preta tão presente em suas praias, que tem virtudes terapêuticas e ajudam no tratamento de artrite e reumatismo – apresenta inúmeros problemas que uma cidade turística não pode apresentar. O ESHoje, faz um alerta para as autoridades competentes e o Ministério Público agirem para salvar o balneário mais querido dos capixabas.

Esgoto. Uma das mais tristes realidades encontradas na cidade é o esgoto. Na praia das Castanheiras, no centro, havia uma língua negra cobrindo parte da areia. Informações dão conta de que os moradores não fizeram as ligações dos esgotos na rede sanitária da Cesan (Companhia Espírito-santense de Saneamento) porque o serviço é cobrado.

Assim, fizeram a ligação na rede pluvial, que leva o esgoto diretamente para a praia.
Na praia do Riacho, a situação é ainda pior. Um “rio” de águas negras percorre sua areia. De acordo com antigos moradores, a praia recebeu esse nome por causa do riozinho de águas cristalinas que passava por ali, e que virou depósito dos dejetos dos edifícios e casas do local.

Um prédio foi construído em cima de uma reserva de água natural e hoje, o que vemos, é o esgoto caindo direto nas pedras da praia, tornando o local impróprio para o banho e causando mau cheiro.

O pescador Gessy da Silva, morador do local desde 1952, conta que a estrada (que liga o centro à Enseada Azul) foi construída em cima do riacho, que foi canalizado. “Até um prédio tentaram construir em cima do rio, mas a obra foi embargada. Só que tinham construído uma garagem subterrânea que está alagada. No começo, até peixe tinha ali, mas hoje virou um depósito de lixo”.

“Seu” Gessy, diz que ali aconteceu a mesma coisa que no centro. “As construtoras e moradores foram ligando o esgoto na canalização do rio e deu nisso que está aí. Mas não vejo interesse em acabar com o problema. Tenho a impressão que, no futuro, “eles” vão tomar conta disso aqui e construir um hotel, tornando a praia particular. Só assim vão solucionar o caso”, prevê o pescador.